A solidão do produtor de eventos aparece nas decisões

Executar junto é comum, decidir sozinho é mais frequente do que parece

A equipe está ali.
O fornecedor responde.
O cliente confia.

Mesmo assim, na hora da decisão, sobra você.

Esse é um bastidor pouco falado na produção de eventos. Porque, de fora, parece que tudo é coletivo. Tem equipe, tem parceiro, tem cliente, tem muita gente envolvida. Mas quem decide sente uma solidão específica.

Não é a solidão de quem não tem ninguém por perto. É a solidão de quem sabe que, no fim, a escolha final recai sobre si.

Segunda-feira costuma escancarar isso. O evento passou ou está chegando. As mensagens começam, as pendências aparecem, as escolhas se acumulam. E você percebe que executar sozinho é diferente de decidir sozinho.

A solidão do produtor de eventos não nasce da falta de gente. Nasce da responsabilidade concentrada.

Muita gente ajuda a executar. Pouca gente divide o peso da decisão.

Quando algo precisa ser definido rápido, alguém pergunta sua opinião. Quando dá certo, foi o time. Quando dá errado, a decisão foi sua. Esse acordo silencioso não está escrito em lugar nenhum, mas todo produtor solo ou líder sem par conhece bem.

O problema não é assumir responsabilidade. O problema é não poder compartilhar a dúvida.

Existe uma expectativa cultural de que quem lidera decide com firmeza. Questionar em voz alta pode parecer insegurança. E ninguém quer passar essa imagem, principalmente para a própria equipe.

Então o produtor guarda.

Guarda a hesitação, guarda o medo de errar, guarda o cálculo de risco. Decide por dentro, em silêncio. E depois sustenta a decisão por fora, com postura.

Isso cansa.

Não é vitimização dizer que decidir sozinho pesa. É constatação.

Decisões em eventos quase nunca são óbvias. São escolhas entre opções imperfeitas, com informação incompleta e tempo curto. O produtor aprende a conviver com isso, mas isso não elimina o impacto interno.

A solidão aparece quando você percebe que não tem com quem pensar junto, só com quem comunicar depois.

Pensar junto é diferente de pedir opinião solta. Pensar junto é poder expor o raciocínio sem precisar já ter uma resposta pronta.

Muitos produtores não têm esse espaço.

Especialmente quem lidera equipes menores ou trabalha sozinho. Nessas situações, o produtor vira ponto de convergência. Tudo passa por ele. Tudo depende dele. E isso vai criando uma distância emocional entre quem decide e quem executa.

Não por arrogância. Por função.

Com o tempo, essa distância vira isolamento se não for nomeada.

A solidão do produtor de eventos também se alimenta de uma narrativa antiga: líder bom não reclama, resolve. Aguenta pressão, segura ponta, decide rápido.

Só que resolver não impede sentir. Aguentar não elimina o desgaste.

O risco está em normalizar demais essa solidão. Em achar que faz parte e pronto. Quando isso acontece, o produtor começa a carregar mais do que precisa.

Carrega a decisão e carrega o silêncio.

Em muitos eventos, a parte mais pesada não é o problema em si. É decidir sem validação. É não ter um par para dizer: “isso faz sentido” ou “isso é pesado mesmo”.

Sem esse espelho, a mente começa a questionar tudo sozinha. Será que exagerei? Será que fui omisso? Será que tinha outra saída?

Esse ruído interno aparece depois, quando o evento termina ou quando a semana começa.

Nomear a solidão não é se colocar como vítima. É reconhecer a estrutura.

Executar sozinho é uma condição prática. Decidir sozinho é uma condição emocional.

Quando o produtor confunde as duas coisas, ele se cobra por sentir algo que não é falha. É consequência.

Muitos líderes acreditam que, ao demonstrar dúvida, perdem autoridade. Mas autoridade em eventos não vem de certeza absoluta. Vem de coerência e presença.

É possível dividir o pensamento sem terceirizar a decisão.

O que falta, muitas vezes, não é alguém para decidir no seu lugar. É alguém para ouvir o caminho da decisão.

Produtores que conseguem criar esse espaço, mesmo que mínimo, sentem a diferença. Pode ser um parceiro de confiança, outro produtor, alguém que entenda o contexto. Não para opinar em tudo, mas para aliviar o isolamento.

A solidão diminui quando a decisão deixa de ser um monólogo interno.

Isso não muda o fato de que, no fim, a assinatura é sua. Mas muda o peso de chegar até ela.

Segunda-feira é um bom dia para perceber isso porque é quando as decisões se empilham. Planejamento, ajuste, resposta, correção de rota. Tudo parece urgente. Tudo parece definitivo.

E aí vem a sensação: “sou só eu”.

Essa sensação não precisa virar drama. Precisa virar consciência.

Consciência de que decidir sozinho faz parte do papel, mas não precisa ser um cárcere. Consciência de que buscar espaços de troca não diminui liderança, amadurece.

A solidão do produtor de eventos não é sinal de fraqueza. É sinal de responsabilidade.

O problema não é senti-la. O problema é não reconhecê-la e deixar que ela vire desgaste acumulado.

Quando o produtor entende que executar sozinho é diferente de decidir sozinho, algo se organiza por dentro. Ele para de se cobrar dureza o tempo todo. Para de achar que sentir peso é incompetência.

Decidir continua sendo difícil. Mas deixa de ser solitário no mesmo grau.

E só de nomear isso, sem vitimização e sem romantizar, a semana começa diferente. Um pouco mais honesta. Um pouco mais leve.

Porque o peso não some. Mas quando é reconhecido, ele para de esmagar em silêncio.

E isso já faz diferença para quem decide tanto, quase sempre sozinho.