Dormir mal não é fraqueza. É sinal de uma cabeça em estado de alerta
Na semana do evento, a cama vira um lugar estranho. O corpo deita, mas a cabeça continua em pé. Os olhos fecham, mas a lista mental abre sozinha. A luz já está apagada e, mesmo assim, você lembra do fornecedor que ainda não respondeu, do áudio que ficou sem retorno, do detalhe que ninguém mais parece preocupado, mas que você sabe que pode virar um problema grande.
É aí que vem a culpa. A ideia de que você deveria conseguir dormir melhor. Afinal, o evento não é amanhã. Está tudo encaminhado. Você já fez isso outras vezes. Por que, então, essa ansiedade antes de eventos insiste em aparecer justamente quando o corpo pede descanso?
A frase que quase ninguém fala em voz alta é simples e pesada. O corpo não descansa quando a cabeça está em alerta. E, para quem produz eventos, a cabeça entra em modo vigilância muito antes da montagem começar.
Quem está de fora costuma chamar isso de nervosismo. Ou de ansiedade exagerada. Mas quem vive bastidores sabe que é outra coisa. Não é medo difuso. É responsabilidade concentrada. É saber que, se algo sair do trilho, o primeiro olhar vai cair sobre você. Mesmo quando o problema não nasceu na sua mesa.
Na prática, o produtor recorrente aprende a funcionar assim. Durante o dia, resolve, apaga incêndio, antecipa risco. À noite, quando tudo silencia, a mente continua rodando porque ainda existem pontas soltas que só você enxerga. A insônia não vem porque você não confia no próprio trabalho. Ela vem porque você confia demais na sua leitura de cenário.
Existe uma narrativa silenciosa no mercado de eventos que pesa mais à noite. A de que evento bom é evento sofrido. Que dormir mal faz parte. Que quem descansa demais está desligado. Essa história nunca é dita de forma direta, mas ela se infiltra na rotina. Você começa a achar normal ficar em estado de alerta constante. E, quando o corpo reage, a culpa aparece como se o problema fosse falta de controle emocional.
Mas não é. O que está acontecendo é vigilância mental.
Vigilância mental é quando a cabeça se mantém acordada para proteger algo importante. No seu caso, proteger o evento, o cliente, a reputação, a equipe. A mente funciona como se dissesse: ainda não é seguro desligar. Ainda tem coisa que pode dar errado. Ainda não terminou.
É por isso que, mesmo cansado, o sono não vem. Não porque você não sabe relaxar, mas porque a sua cabeça entende que relaxar agora pode custar caro depois.
Talvez você já tenha passado por isso em eventos menores também. Aqueles em que, no papel, tudo parecia simples. Pouca gente envolvida, orçamento controlado, escopo claro. Ainda assim, na semana do evento, a ansiedade antes de eventos apareceu do mesmo jeito. Isso confunde ainda mais. Se não é o tamanho do evento, então o que é?
É o acúmulo invisível. Cada experiência passada deixa um registro. Um atraso que virou crise. Um detalhe ignorado que explodiu na última hora. Um fornecedor que falhou quando você menos esperava. A cabeça guarda esses episódios não como trauma, mas como aprendizado bruto. E tenta evitar que se repitam mantendo você em alerta máximo.
Ninguém vê esse trabalho mental. Ele não entra no cronograma. Não aparece na planilha. Mas consome energia real. Por isso, quando alguém diz “tenta descansar”, soa quase ofensivo. Como se fosse uma escolha simples.
Você já percebeu como, nessas noites, a mente não revisita tudo de forma caótica? Ela costuma girar sempre nos mesmos pontos. Aquilo que depende só de você. Aquilo que ainda não está 100% fechado. Aquilo que, se der errado, vai cair no seu colo.
Essa repetição revela uma microdecisão silenciosa. A de segurar tudo sozinho. Mesmo quando existe equipe. Mesmo quando existe fornecedor. Mesmo quando, racionalmente, você sabe que não controla tudo.
Segurar tudo dá uma falsa sensação de segurança. A cabeça acredita que, se continuar alerta, consegue evitar surpresas. O preço é o sono. E, com ele, vem o desgaste acumulado que ninguém associa diretamente à ansiedade antes de eventos, mas que está sempre ali.
Reposicionar isso muda o peso. Dormir mal antes do evento não te torna menos profissional. Pelo contrário. Mostra o quanto você leva a sério o que faz. O problema não é reconhecer esse estado. O problema é achar que ele precisa ser combatido com força ou vergonha.
O alívio começa quando você para de brigar com o sintoma e começa a entender a função dele. A vigilância mental está tentando te proteger. Só que ela não sabe quando parar sozinha.
Uma coisa simples ajuda mais do que técnicas mirabolantes. Dar nome ao que está te mantendo acordado. Não como lista de tarefas, mas como responsabilidade emocional. Perguntar para si mesmo, com honestidade: o que exatamente a minha cabeça está tentando garantir agora?
Talvez seja a chegada do público. Talvez seja a entrega do palco. Talvez seja o discurso de abertura. Quando você identifica isso, algo muda. A vigilância deixa de ser difusa e vira localizada. O peso sai do corpo inteiro e se concentra em um ponto só.
Outra virada pequena é aceitar que nem toda segurança vem do controle total. Às vezes, ela vem de acordos claros. De mensagens enviadas cedo demais. De combinações repetidas sem vergonha. De dividir um risco com alguém da equipe, nem que seja só verbalmente.
Isso não elimina a ansiedade antes de eventos. Mas reduz a intensidade. E intensidade é o que mais rouba o sono.
Produtores experientes não dormem melhor porque se importam menos. Dormem melhor quando aprendem a reconhecer o limite entre responsabilidade e vigilância excessiva. Esse limite não é fixo. Ele muda conforme o evento, o momento de vida, o nível de suporte.
A Evenday fala muito sobre organizar o evento fora para aliviar o peso dentro. Mas, nos bastidores, existe também o trabalho invisível de organizar a cabeça. Não para desligar, mas para permitir pequenas pausas de descanso real.
No domingo, ler isso talvez não faça você dormir perfeitamente na próxima semana de evento. E tudo bem. O microalívio aqui é outro. É tirar a culpa do corpo cansado. É entender que a insônia não é falha, é sinal.
Quando você reconhece que o corpo não descansa porque a cabeça está em alerta, algo amolece por dentro. A cobrança diminui. A tensão perde força. E, às vezes, só isso já abre espaço para um sono um pouco mais honesto.
Mesmo que curto. Mesmo que imperfeito. Já ajuda.