Medo de errar em eventos nasce do que não está visível

Quando tudo fica só na cabeça, qualquer detalhe parece capaz de virar desastre.

Existe um momento específico em que o medo aparece. Não é quando o problema acontece. É quando você está no banho, dirigindo ou tentando dormir e a cabeça solta a frase: “tem alguma coisa faltando”. Sem nome. Sem forma. Só a sensação.

Para quem está começando a produzir ou para quem está sobrecarregado demais, esse medo de errar em eventos vira companhia fixa. Ele não avisa o que foi esquecido. Só aperta o peito e deixa a mente rodando, tentando adivinhar onde está a falha.

A parte mais cruel é que, muitas vezes, nada foi esquecido de fato. Ainda assim, a sensação insiste. E, com ela, vem a dúvida silenciosa sobre a própria capacidade. Será que eu deixei passar algo básico? Será que estou no controle mesmo?

Aqui entra uma verdade que quase ninguém explicita nos bastidores. O medo cresce quando o invisível fica na cabeça.

No início da carreira, quase tudo é invisível. Processos ainda não existem. Rotinas ainda não estão claras. O produtor iniciante aprende fazendo, segurando várias frentes ao mesmo tempo e confiando muito mais na memória do que gostaria de admitir. Já o produtor sobrecarregado vive outro tipo de invisibilidade. Ele até tem experiência, mas carrega tanto que já não consegue enxergar tudo ao mesmo tempo.

Nos dois casos, o efeito é parecido. A cabeça vira depósito de pendências. E depósito mental não tem etiqueta, não tem ordem, não tem confirmação visual de que algo foi resolvido.

Quando alguém pergunta se está tudo certo, você responde que sim. Mas, por dentro, a resposta é “eu acho”.

Esse “acho” é o combustível do medo de errar em eventos.

Existe uma narrativa silenciosa no mercado que piora isso. A de que produtor bom dá conta de tudo de cabeça. Que pedir confirmação demais é insegurança. Que revisar é sinal de inexperiência. Essa história empurra muita gente para um lugar solitário, onde o controle é interno e invisível.

O problema é que a cabeça não foi feita para funcionar como sistema de gestão. Ela lembra do que dói, do que pode dar errado, do que já deu errado no passado. Ela não lembra com a mesma precisão do que está resolvido. Por isso, mesmo quando 90% do evento está encaminhado, os 10% nebulosos ocupam 100% da atenção.

Talvez você reconheça a cena. Um evento simples, poucas atrações, equipe enxuta. Ainda assim, a sensação de que algo vai falhar. Não porque você não sabe fazer, mas porque não consegue ver tudo ao mesmo tempo.

Esse medo não nasce da incompetência. Nasce da falta de visibilidade.

Quando tarefas, decisões e combinações ficam espalhadas em conversas de WhatsApp, áudios soltos, anotações diferentes e memória, o cérebro entra em modo de proteção. Ele entende que precisa ficar alerta o tempo todo para não deixar nada escapar.

Aí começa o ciclo. Quanto mais alerta você fica, mais cansa. Quanto mais cansa, menos clareza tem. E quanto menos clareza, mais o medo cresce.

O conflito interno é pesado, principalmente para quem está começando. Existe o desejo de parecer profissional, organizado, seguro. E existe a realidade de estar aprendendo enquanto executa. Esse choque gera uma cobrança interna constante. Você não quer errar porque sente que um erro confirma um medo maior: o de não estar pronto.

Para quem já está sobrecarregado, o conflito muda de forma, mas não de peso. O orgulho de dar conta de tudo entra em choque com o cansaço de sustentar tudo sozinho. Você já sabe fazer, mas não consegue mais enxergar o todo com nitidez. E a falta de visibilidade vira ameaça.

O ponto de virada acontece quando você separa duas coisas que costumam se misturar. Memória e controle.

Memória falha. Controle precisa ser visível.

Controle visível não é planilha complexa nem ferramenta mirabolante. É qualquer forma de tirar da cabeça aquilo que não precisa ficar lá dentro o tempo todo. É transformar sensação difusa em informação concreta.

Um produtor iniciante sente alívio quando começa a ver o evento fora da própria mente. Uma lista simples, um quadro, um documento compartilhado, uma linha do tempo rabiscada. Não importa o formato. Importa que o invisível ganhe forma.

O mesmo vale para quem está sobrecarregado. Muitas vezes, o medo de errar em eventos diminui não quando algo novo é feito, mas quando o que já foi feito fica claro. Ver que aquela confirmação já aconteceu. Que aquela entrega já foi alinhada. Que aquela decisão já foi tomada.

Esse movimento parece pequeno, mas muda o diálogo interno. A cabeça deixa de perguntar “será que eu esqueci?” e passa a afirmar “isso está resolvido”.

Existe uma microdecisão cotidiana que pesa muito aqui. A de adiar a organização porque “agora não dá”. Ela é compreensível. A correria é real. Mas cada adiamento empurra mais coisa para dentro da cabeça. E a cabeça cobra com medo.

Outro ponto pouco falado é a confusão entre atenção e ansiedade. Muitos produtores acham que o medo constante é sinal de cuidado. Como se, ao manter a preocupação viva, estivessem garantindo que nada vai dar errado. Na prática, o efeito costuma ser o oposto. A ansiedade embaralha prioridades e cria alarmes falsos.

Quando tudo parece igualmente urgente, o cérebro não consegue descansar nem focar.

Trazer visibilidade é um gesto de cuidado, não de fraqueza. É assumir que o evento é grande demais para caber inteiro dentro de uma pessoa só, mesmo quando essa pessoa é você.

Não é sobre controlar cada detalhe obsessivamente. É sobre reduzir o volume do desconhecido. Dar nome ao que está aberto. Marcar o que está fechado. Aceitar que o medo diminui quando a informação aparece.

A Evenday costuma dizer que organização não é rigidez, é alívio. Nos bastidores, isso se traduz em menos sustos imaginários e mais decisões conscientes. O evento deixa de ser uma nuvem de possibilidades ruins e passa a ser um conjunto de partes que você consegue enxergar.

Na segunda-feira, esse reconhecimento faz diferença. O medo de errar em eventos não precisa te acompanhar a semana inteira. Ele não define sua capacidade. Ele só está apontando um excesso de coisa invisível.

O microalívio aqui é simples e honesto. Você não está com medo porque é ruim no que faz. Está com medo porque está tentando enxergar tudo sozinho, por dentro. Quando algo sai da cabeça e ganha forma, o medo perde força.

Talvez não desapareça de uma vez. Mas fica menor. Mais administrável. E isso já muda o jeito como você atravessa o dia.

Com menos peso.
Com mais clareza.
E com a sensação de que, agora, dá para ver melhor onde você está pisando.