Correria na produção de eventos vira modo de sobrevivência

Quando tudo parece urgente, o problema não é o evento. É o ritmo.

A sensação começa cedo. Você acorda e, antes mesmo de levantar, já está atrasado. Mensagem não respondida. Fornecedor cobrando retorno. Um detalhe que ficou para depois e agora virou prioridade máxima. A cabeça entra em modo corrida antes do corpo sair da cama. Não é um dia específico. É quase todo dia.

Na produção de eventos, viver com a impressão de que tudo é para ontem virou paisagem. Não causa mais estranhamento. O estranho seria um dia calmo demais. Quando acontece, gera até desconfiança. Parece que algo está errado, escondido, prestes a explodir.

Essa correria constante não surge do nada. Ela vai se instalando aos poucos. Um prazo apertado aqui, um improviso ali, um “depois eu vejo isso” que vira incêndio na semana seguinte. Quando você percebe, já está operando em estado de alerta permanente. E chama isso de rotina.

O problema é que o corpo não entende como rotina. Ele entende como urgência.

Urgência constante não é ritmo saudável, é alerta. E alerta contínuo cansa mais do que evento grande.

Quem produz evento sobrecarregado aprende a normalizar esse estado. Aprende a dizer que “é puxado mesmo”, que “evento é assim”, que “no fim sempre dá certo”. Essas frases funcionam como proteção social. Evitam explicar demais. Evitam parecer frágil. Mas, por dentro, o pensamento é outro: ninguém vê o peso real de manter tudo rodando assim.

Existe um conflito silencioso aí. Você sabe que dá conta. Já provou isso várias vezes. Mas também sabe que está sempre no limite. Entre o orgulho de resolver e o cansaço de nunca sair do modo emergência, a conta não fecha.

Na prática, a correria na produção de eventos cria uma ilusão perigosa: a de que estar sempre apagando incêndio é sinal de competência. Como se profissional bom fosse aquele que aguenta mais pressão, responde mais rápido, dorme menos e improvisa melhor. Não é uma escolha consciente. É uma narrativa que foi sendo absorvida com o tempo.

Em muitos bastidores, evento bom ainda é confundido com evento sofrido. Quanto mais histórias de perrengue, mais respeito se ganha. Só que ninguém fala do custo acumulado disso. Da cabeça que não desliga. Da dificuldade de planejar algo com calma. Da sensação de que o próximo evento já começa atrasado, mesmo antes de ser anunciado.

Um exemplo comum: o cronograma que nasce apertado. Não porque não havia tempo, mas porque “sempre foi assim”. A divulgação começa em cima da hora. As decisões estratégicas ficam para depois. O fornecedor entra sem briefing completo. Cada pequeno atraso gera outro. No final, tudo se resolve. Sempre se resolve. E isso reforça a ideia de que o caos funciona.

Funciona, mas cobra.

O corpo fica em estado de tensão contínua. A mente pula de assunto em assunto. A sensação de controle é substituída por sobrevivência. Você não está escolhendo o que fazer, está reagindo ao que aparece. E reage rápido porque não dá para parar.

Aqui entra uma microdecisão quase invisível, repetida todo dia: aceitar a urgência como padrão. Não questionar. Não nomear. Apenas seguir. É mais fácil do que parar e encarar o fato de que algo no ritmo está errado.

Questionar dá medo. Medo de perder o controle. Medo de não dar conta. Medo de descobrir que o problema não é um evento específico, mas a forma como todos estão sendo conduzidos.

Reconhecer isso não é fraqueza. É lucidez.

Viver permanentemente em modo urgência cria uma distorção de prioridade. Tudo parece igualmente importante. Tudo exige resposta imediata. E, quando tudo é urgente, nada é estratégico. O produtor fica ocupado demais para perceber onde está se sabotando sem querer.

A correria na produção de eventos também isola. Quem está sempre correndo não explica, não delega, não compartilha. Resolve sozinho porque é mais rápido. Só que cada decisão centralizada reforça o ciclo. Quanto mais você faz, menos tempo tem. Quanto menos tempo tem, mais urgente tudo fica.

Em muitos domingos, esse peso aparece com mais clareza. Não porque o dia seja diferente, mas porque o corpo sente. A semana acabou, mas a cabeça não. O descanso vem com culpa. O silêncio incomoda. A lista mental continua rodando. A urgência não tira folga.

Talvez você já tenha se perguntado, mesmo que rapidamente, se isso é sustentável. E logo em seguida afastou o pensamento. Agora não dá. Depois eu vejo. Só mais esse evento. Só mais essa entrega. É assim que o modo alerta se perpetua.

Não se trata de romantizar calma absoluta ou fingir que eventos não têm pressão. Eles têm. Prazos reais, dinheiro envolvido, expectativas altas. O ponto não é eliminar a urgência pontual. É perceber quando ela vira estado permanente.

Quando tudo parece urgente o tempo todo, isso não é eficiência. É sinal de que o sistema está operando no limite. E sistemas no limite quebram em silêncio, não em explosão.

O reconhecimento aqui não pede mudança radical imediata. Pede nomeação. Chamar pelo nome já diminui o peso. Entender que esse cansaço não é falta de preparo, nem incapacidade. É consequência direta de um ritmo que virou padrão sem ser escolhido.

A Evenday existe justamente porque muitos produtores vivem essa sobrecarga calados. Não para prometer solução mágica, mas para organizar o caos invisível que ninguém vê de fora.

O primeiro microalívio possível é simples e honesto: parar de se cobrar como se urgência fosse virtude. Ela não é. É um alerta de que algo precisa ser reorganizado, mesmo que aos poucos.

Você não precisa resolver isso hoje. Nem transformar tudo de uma vez. Só reconhecer já tira um pouco do peso do peito. A correria na produção de eventos não define quem você é. Ela descreve um contexto. E contexto pode ser reorganizado.

Respira. Nomear já é um começo.