O cansaço na produção de eventos que nunca parece acabar

Existe um tipo específico de cansaço na produção de eventos que não some com uma boa noite de sono.
Ele acorda junto. Ele atravessa a semana. Ele aparece no domingo à noite, mesmo quando teoricamente não há nada urgente para resolver.

É o cansaço de viver sempre correndo.

Não correndo por um evento específico.
Correndo por todos ao mesmo tempo, mesmo quando só um está acontecendo.

A cena é conhecida. Domingo de manhã, celular na mão, tentando lembrar se aquele fornecedor confirmou mesmo ou se ficou “quase certo”. Um café que esfria enquanto você revisa mentalmente tudo o que pode dar errado na semana seguinte. O corpo está em casa, mas a cabeça ainda está no meio da produção.

E o pensamento silencioso vem junto: “por que eu nunca sinto que estou em dia?”

Esse cansaço não é preguiça, falta de organização ou desleixo. Ele é consequência direta de uma urgência prolongada, sustentada por tempo demais.

Quando tudo é urgente, nada descansa.

Na produção de eventos, a urgência começa cedo. Prazos apertados, decisões que não podem esperar, pessoas que dependem da sua resposta para seguir. O problema é que essa urgência, que deveria ser pontual, vira padrão.

Sempre tem algo em cima da hora.
Sempre tem alguém esperando você responder.
Sempre tem uma pendência que “dá pra empurrar só mais um pouco”.

E assim, o produtor vai se adaptando. Não porque quer, mas porque precisa. Aprende a funcionar sob pressão, a resolver no improviso, a apagar incêndio com naturalidade. Por fora, parece experiência. Por dentro, é desgaste acumulado.

O corpo até aguenta por um tempo.
A cabeça também.
Mas a sensação de controle vai embora aos poucos.

Você trabalha muito, mas nunca sente que o trabalho termina. Fecha um evento e já está atrasado para o próximo. Resolve um problema e outro surge no lugar. O tempo deixa de ser algo que você organiza e vira algo que você tenta alcançar.

Esse é o ponto mais invisível desse cansaço: ele não vem só do volume de tarefas, mas da impossibilidade constante de respirar entre elas.

Existe uma narrativa silenciosa no mercado de eventos que reforça isso. A ideia de que “evento é assim mesmo”, de que o caos faz parte, de que quem não aguenta a correria não nasceu para a área. Sem perceber, muitos produtores transformam a urgência em identidade profissional.

Se não está puxado, parece que algo está errado.

Só que viver nesse estado cobra um preço.
E ele aparece primeiro no domingo.

Domingo não é dia de problema técnico, nem de cliente ligando cedo. Domingo é o dia em que a urgência externa diminui, e a interna fica mais alta. É quando a cabeça, sem distrações, percebe o quanto está cansada.

Você já reparou como o domingo, que deveria ser descanso, vira um espaço de antecipação?
A semana nem começou e você já está cansado dela.

Esse cansaço não é sinal de fraqueza. Ele é sinal de que o modo de operar está exigindo mais do que o corpo e a mente conseguem entregar de forma contínua.

E aqui existe um conflito interno difícil de admitir. Muitos produtores gostam do que fazem. Sentem orgulho dos eventos que entregam, das soluções criativas, da capacidade de resolver. Ao mesmo tempo, estão exaustos de viver nesse ritmo. Amar eventos e não aguentar mais sofrer virou uma contradição silenciosa.

O problema é que, como a urgência é coletiva, o cansaço vira individual. Cada produtor acha que está falhando sozinho, quando na verdade está reagindo a um sistema que normaliza o excesso.

Na prática, isso se traduz em microdecisões diárias que parecem inofensivas. Deixar para depois aquele planejamento mais detalhado porque “agora não dá”. Centralizar tudo em si mesmo porque explicar leva tempo. Não parar para revisar processos porque o próximo evento já está chegando.

Nada disso é feito por descuido. É sobrevivência.

Mas sobrevivência prolongada cansa.

O corpo entra em modo de alerta contínuo. A cabeça nunca desliga. O descanso perde qualidade porque a mente está sempre projetada no próximo prazo. E, aos poucos, o produtor passa a associar controle com tensão.

Se não estou tenso, parece que estou esquecendo algo.

Esse é um dos pontos mais duros de reconhecer. A urgência constante cria uma falsa sensação de produtividade. Estar sempre ocupado vira prova de comprometimento. Só que comprometimento sem pausa vira esgotamento.

O cansaço na produção de eventos, nesse nível, não pede férias longas ou grandes mudanças imediatas. Ele pede algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais difícil: reconhecer que viver correndo não é um traço de personalidade, é uma consequência de escolhas acumuladas sob pressão.

Não escolhas erradas. Escolhas possíveis naquele momento.

O alívio começa quando o produtor entende que não está cansado porque faz eventos, mas porque faz tudo em estado de urgência permanente. Essa distinção muda o peso da culpa. O problema não é você, é o ritmo que foi se impondo sem ser questionado.

Isso não significa que, de uma hora para outra, o mercado vai desacelerar ou que os eventos vão ficar previsíveis. Mas significa que dá para começar a separar o que é urgência real do que virou urgência por hábito.

Talvez seja olhar para a semana e aceitar que nem tudo precisa ser resolvido no mesmo dia. Talvez seja admitir que responder tudo imediatamente não é sinônimo de profissionalismo. Talvez seja permitir que um domingo seja apenas domingo, mesmo com a semana batendo à porta.

Pequenos gestos não eliminam a correria, mas reduzem a sensação de descontrole.

O microalívio vem quando o produtor percebe que o cansaço faz sentido. Que ele não está exagerando, nem ficando fraco. Está apenas sentindo no corpo o efeito de uma urgência que durou tempo demais.

Reconhecer isso já muda algo por dentro. O peso diminui um pouco. A respiração fica menos curta. A semana seguinte não parece tão opressora antes mesmo de começar.

Talvez o controle total nunca exista na produção de eventos. Mas o sentimento de estar sempre atrasado com a própria vida não precisa ser permanente.

E só de enxergar isso com mais clareza, o domingo já fica um pouco mais leve.